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01/07/2022 07:43

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Qual é o nome da sua depressão?

O psiquiatra Pablo Vinícius, formado em medicina pela Universidade Federal de Uberlândia com especialização em psiquiatria e em medicina do sono pelo Instituto do Sono de São Paulo, vai realizar um sonho: usar as ondas da Rádio SucessoNews para esclarecer as pessoas sobre saúde mental. Com mestrado em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília, o médico quer usar seus conhecimentos em neurociências para desmistificar as doenças como depressão, bipolaridade e esquizofrenia. Pablo Vinicius é também autor do livro Antitarja preta, que ele descreve como uma reflexão contra a banalização do diagnóstico e do uso dos psicotrópicos. Atualmente Pablo Vinícius é professor do curso de medicina das Faculdades Integradas da União Educacional do Planalto Central, em Brasília, onde também é coordenador do Internato em Saúde Mental. Ele foi recebido no Jornal da Sucesso 2ª Edição e deu a seguinte entrevista a jornalista Elisabel Ferriche e Iell Paiva.

Gostaria de começar com um tema, que sempre foi tabu e proibido a divulgação nos veículos de comunicação por questão ética: o suicídio. Só recentemente, em 2015, quando teve início a campanha Setembro Amarelo, o tema passou a ser divulgado para acabar com o estigma e ajudar a quem sofre de depressão a buscar tratamento, e reduzir as tentativas de óbitos por suicídio. Porque mesmo assim, eles ainda acontecem com tanta frequência?

Ainda há muito preconceito. Das especialidades médicas, a saúde mental é a mais carregada de preconceito. Graças a campanhas como Setembro Amarelo, de combate ao suicídio, e o Janeiro Branco, para chamar atenção para as questões relacionadas as necessidades à saúde mental das pessoas, esse preconceito vem diminuindo. Tem trazido para o centro do debate a saúde mental. Os médicos já estão falando mais sobre o assunto na TV, no rádio e as pessoas passam a ouvir o assunto. E isso pode salvar vidas! Quando falamos de depressão, a gente estimula as pessoas a buscar ajuda. E isso salva vidas. Quer um exemplo: qual a diferença do anti-hipertensivo para o antidepressivo? O conhecimento. O filho sabe que a pressão alta vai matar o pai dele, e o incentiva a tomar o anti-hipertensivo, mas como ele não sabe que a depressão é uma doença que também pode matar, ele não estimula a tomar o antidepressivo, ao contrário, ele fala: vai ficar viciado! Mas ele ainda não sabe que o que separa esse tipo de comportamento, é o desconhecimento.

No fim do ano passado, uma influencer famosa, Layla da Fonseca, chamou atenção ao postar que tinha tentado o suicídio. Que tipo de atenção é preciso? Quando buscar ajuda?

A tentativa de suicídio é como se fosse o fim da estrada para um paciente depressivo. É verdade que nem todo paciente deprimido vai tentar o suicídio. Na psiquiatra a gente considera que a tentativa de suicídio é sinal de gravidade da doença. Normalmente a pessoa vai piorando a sua depressão até chegar à tentativa do suicídio. Ela vai dando sinais anteriores e é aqui que a gente tem que atuar enquanto sociedade, amigos, família e profissionais. O primeiro sinal, normalmente precoce, é quando a pessoa começa a demonstrar o desinteresse pela vida.

Esse desinteresse pela vida aparece como?

É uma das primeiras manifestações desse estado depressivo. Ela chega é diz: se fosse para acabar agora estaria bom pra mim, ou não vejo mais graça em nada. Se eu pudesse dormir e não acordar estava bom. Esse desejo por não mais viver, ou a vontade de não estar aqui, já é sinal de um quadro depressivo, porque a só a tristeza não tira a vontade de viver. A gente tem expectativa de que amanhã será melhor. A tristeza da depressão ela vai minando a vontade de viver.

Outros dois youtuber Aline Araújo e Lucas Santos não tiveram o mesmo desfecho depois de receberem comentários maldosos de seguidores. Aline Araújo recebeu inúmeras críticas de internautas por decidir se casar com ela mesma após um rompimento com o noivo e o Lucas Santos não soube lidar com os comentários homofóbicos de um vídeo que ele postou nas suas redes sociais. Esses dois fatos foram os gatilhos para o suicídio dos dois? Se houvesse tratamento adequado, o desfecho poderia ser diferente?

Essas pessoas precisam estar muito bem preparadas para a exposição pública. Eu trabalho com algumas celebridades e preparo-os para esse tipo de desafio. Uma coisa é você receber a opinião de quem está perto, outra coisa é ser susceptível a opinião do país inteiro, de quem você não conhece e, digo mais, de pessoas perversas cujo prazer é machucar. Tem pessoas que psicologicamente são perversas. Elas estão nesse mundo para ter os seus prazeres baseados na dor alheia. Então elas vão querer te perturbar. E as redes sociais se tornaram um campo aberto para isso! Os haters têm prazer em provocar a dor alheia.

A popularização das redes sociais pode influenciar, no caso as pessoas que já tem depressão?

Você precisa saber lidar com o que vem do lado de lá. Ignorar, ser sarcástico, ser indiferente. Isso é a pior coisa para um hater.

Outro caso emblemático foi da ginasta norte-americana Simone Biles que desistiu das finais do individual da ginástica artística nas Olimpíadas de Tóquio. Afinal, o que leva um atleta, no auge da forma física, a sofrer um bloqueio mental que o impede de competir? Ela poderia ter tratado antes para evitar a desistência ou o problema aparece na hora?

O estresse que tem vários níveis. Na psiquiatria o estresse é chamado de ansiedade. Ela tem vários níveis, desde muito baixo, que não é interessante, a pessoa fica muito apática, sem energia; passa por um nível ideal, que produz altíssima produtividade, inclusive os atletas de alto desempenho que são treinados para chegar no nível ótimo de tensão. Ele fica pronto para atingir seu melhor desempenho. Quando passa desse nível ótimo, o atleta paralisa, trava.

Como foi o caso do Ronaldo Fenômeno?

Isso. O atleta sofre tanta pressão que paralisa. Isso significa que o nível tensional passou do ponto, o que prejudica o desempenho. Foi o que a aconteceu com Ronaldo. Às vezes eu vejo posts sugerindo: acabe com seu estresse. Isso é absurdo. O estresse nível ótimo é desejável. É ele que te faz acordar, te dá energia. Temos que gerenciar o estresse para que ele não atinja um nível alto e prejudique seu dia a dia.

Nunca se falou tanto em saúde mental como nos últimos anos. Na pandemia então, o tema veio à tona com o isolamento social. Isso pode ter agravado casos de ansiedade, depressão e síndrome do pânico?

Eu tenho certeza. Se a pandemia teve algo positivo, foi trazer o problema à tona. Vou corroborar com dados científicos. Antes da pandemia o Brasil já era o país com maior número de ansiedade do mundo. Ninguém falava nisso. 75% dos brasileiros não dormem bem. Antes da pandemia o Brasil já era o segundo país do mundo a consumir calmantes, após os EUA. Na pandemia, o que já era ruim potencializou.

A depressão, esquizofrenia são doenças mentais que precisam ser tratadas com medicamentos. E o senhor é autor de um livro, intitulado Antitarja preta. Porque? O senhor é contra os remédios psiquiátricos?

Primeiro eu quero falar o que o livro Antitarja preta não é. Ele não é um livro negacionista da doença mental, nem da necessidade do tratamento medicamentoso para as doenças mentais. Pelo contrário, eu reafirmo o diagnóstico e a necessidade do tratamento. O livro Antitarja preta é uma reflexão contra a banalização do diagnóstico e do uso do psicotrópico. E a sociedade hoje quer usar antidepressivos, não para tratar a depressão ou qualquer outra doença mental, mas para amenizar a tristeza normal do dia a dia. O livro Antitarja preta é anti isso. Ao invés enfrentar o problema as pessoas procuram o psiquiatra para anestesiar o problema. E hoje nós temos uma multidão usando psicotrópicos para dar conta de viver as suas vidas, e não para tratar de uma doença mental.

A capa do livro é muito interessante, parece uma embalagem de remédio. E nela diz: “Venda sem Prescrição Médica. A leitura desse livro pode transformar sua vida”. O senhor pode explicar porque?

O livro Antitarja preta é uma jornada em que cada capítulo eu trabalho com dois pacientes. Ele acontece dentro do consultório e é um bate papo com os pacientes que me procuram. Em cada capítulo eu abordo uma temática e eu uso dois pacientes para explicar cada tema. Eles têm algo em comum. Os pacientes quando procuram o psiquiatra eles veem com queixas, sintomas. Normalmente a consulta termina com a prescrição de um remédio para os sintomas relatados. O livro é uma jornada para entender as razões dos sintomas. Na verdade, eu falo o seguinte: o remédio vai resolver os sintomas, mas não vai resolver a sua vida. Se o paciente tem uma depressão e procura um médico, a depressão são os sintomas. Se o paciente está triste, apático, não quer viver, um antidepressivo vai resolver a vida? Qual é o nome da sua depressão? Ela tem nome. O livro Antitarja preta fala dessa jornada para entender as razões dos sintomas. Se o paciente está tendo uma crise de pânico, isso é só a pontinha do iceberg. A pergunta é: de onde vem tanta palpitação, tanto medo de morrer? Quais são os nomes dos seus sintomas? É o seu casamento? É o seu trabalho? Só que a psiquiatria não se preocupa tanto com isso. Ela só quer amenizar os sintomas. Para isso tome remédio. Estamos de fato ajudando os nossos pacientes ou simplesmente minimizando os sintomas? E por isso que as pessoas se sentem dependentes dos remédios psiquiátricos. Porque elas só tomam os remédios para melhorar e não fazem mais nada para trabalhar os sintomas e quando tiram os remédios elas pioram porque não combatem os sintomas. Não fazem dieta, não fazem atividade física, não fazem terapia. E quer resolver? Não existe milagre.

O livro Antitarja preta conta histórias reais?

São histórias de pessoas reais e, com certeza, você vai se identificar com alguém. São 12 casos: é a Lorena, mãe de duas filhas, que quer mudar a vida e sofre de pânico, é o André, empresário de sucesso, mas queria ser um escritor e por isso tem depressão, é o que sofreu bulling na infância, mas o problema se manifesta em uma fase tardia com uma depressão, é a mãe sobrecarregada que acha que é uma heroína e quer dar conta de tudo sozinha. Em cada personagem eu trabalho o aspecto social e cultural que está envolvido no adoecimento psíquico. Tem a mulher carente que se submete a um relacionamento abusivo, o homem possessivo, ciumento exageradamente. E eu sempre trabalho os aspectos de felicidade, de culpa, de carência. Eu parto da palpitação e nós vamos chegar na carência humana. Eu parto da tristeza e nós vamos falar de felicidade. Então o Antitarja preta fala dessa caminhada da superfície para profundidade. O problema não é a palpitação, mas os sintomas. Isso é uma linguagem, é uma expressão do seu corpo. O seu problema está por trás de tudo isso. E aí que eu faço as pessoas entenderem.

Expor o problema ajuda?

Depende para quem você vai expor. Tem gente que vai usar seu ponto fraco para te desestabilizar, e eu sempre falo isso para os pacientes. Ninguém precisa saber do seu problema, mas não carregue ele sozinho. Não precisa falar para todo mundo, porque as pessoas são cheias de preconceitos e podem usar isso contra vc. Mas um dos aspectos mais protetores do adoecimento mental e emocional se chama rede de apoio, é a principal variável que protege as pessoas. Ter familiares e amigos de confiança é importante, assim como a falta dessa rede de proteção é um empurrão para o adoecimento emocional.

Segundo o Conselho Federal de Farmácias, só na pandemia foram vendidas 100 milhões de caixas de antidepressivos, medicamentos que tem venda controlada, um aumento de 17% na comparação a antes da pandemia. Qual a justificativa para este aumento?

É a medicalização da vida. É remédio para dormir, para acordar, para sorrir, para emagrecer, as pessoas em vez de olharem para sua vida, enfrentarem seus problemas, estão sendo medicadas para conseguir viver os seus problemas. E é isso que está acontecendo. Em São Paulo foi feito um estudo com 3 mil pessoas que usavam antidepressivos. A pesquisa avaliou quantas delas tinham os critérios necessários que justificavam o uso de antidepressivos e os que não tinham. O resultado da pesquisa mostrou que de cada 100, 68 pacientes analisados usavam medicamentos para depressão sem necessidade. Quem mais está ganhando com isso é a indústria farmacêutica que está rindo à toa. Muitas pessoas estão usando antidepressivos sem critério diagnóstico para tratar o desconforto emocional do dia a dia. O casamento tá ruim, vai ao psiquiatra. Uma vez ouvi de uma paciente: “minha amiga disse que toma fluoxetina e o casamento melhorou”. Então as pessoas tomam remédio psiquiátrico para dar conta de marido chato? A psiquiatria virou isso.

Usar tarja preta não é um estilo de vida?

Definitivamente não! Medicamento psiquiátrico é para tratar uma doença mental.

O senhor agora terá um programa na Rádio SucessoNews que estreia no dia 9 de abril, às 11 horas, aos sábados.

É verdade! Quero agradecer ao Grupo RC na pessoa do Raul Canal que possibilitou esta parceria que concretiza um sonho: falar de saúde mental para todos, por meio do rádio, que tem o poder de atingir muitos ao mesmo tempo. Minha atividade no consultório é muito limitada e eu quero falar para muitos.

O seu programa vai ser uma espécie de consultório psiquiátrico na Rádio SucessoNews?

Em parte sim. O Conversa nada afiada, como será chamado, vai ser conduzido por mim, psiquiatra, e por um humorista. E a ideia é falar de um assunto sério de forma leve. E parte do programa vai ser um divã onde os ouvintes poderão esclarecer suas dúvidas. E eu vou responder no ar, naquilo que for possível. Mas a ideia é esclarecer dúvidas sobre doenças mentais. Vou usar o contato de um ouvinte para falar para todos.

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